Fragmentação da luta política: um presentão para o teu patrão São vários os fatores que fizeram com que a luta política tivesse um refluxo nos últimos anos. Poderia listar muitas razões para a decadência da militância, mas como não recebo nada para escrever neste espaço e, por isso, não posso me dedicar integralmente ao mesmo, devo fazer uma análise rápida, quiçá, trivial. No texto que segue vou me concentrar na fragmentação da luta política, uma das causas do enfraquecimento dos movimentos sociais verificado no final do século XX e começo do atual. Bom, essa é a minha análise. Com o advento da Revolução Francesa, em 1789, foi instituída, pelo governo revolucionário, uma Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que diz, entre outras coisas, o seguinte: “os homens nascem e vivem livres e iguais em direitos.” Em seguida, após esse belo início, tivemos a guilhotina e outras coisas bem desagradáveis, mas isso é assunto para outro texto. O importante da declaração em questão é que, na teoria, todos os seres humanos estariam protegidos pelos seus 17 artigos. Sobretudo após 1968, ano de grande agitação política em países como a França, a extinta Tchecoslováquia (Primavera de Praga), os Estados Unidos e o Brasil, o movimento libertário, que até ali era razoavelmente coeso, tornou-se vários e com isso perdeu o pouco da força que tinha. A vanguarda política tende a ser um movimento pequeno, mas como resultado daquele ano ela tornou-se minúscula. Do movimento que pedia, ou melhor, exigia a “imaginação no poder”, surgiram incontáveis grupos políticos, muitos dos quais, aliás, já não queriam mais contestar o status quo, mas fruir os possíveis benefícios do mesmo. A turma de 68 deu origem ao movimento negro, feminista, homossexual e outros. O que deveria ser a luta de todos, tornou-se a agenda de alguns grupos. Não há problema em tratar, eventualmente, de temas específicos, mas quando eles se sobrepõem aos princípios que deveriam nortear uma causa, observa-se, quase sempre, o enfraquecimento da mesma, seja ela qual for. Aí surge a fragmentação. Qualquer estrategista político ou militar, os melhores do gênero tendem a unir as duas coisas, sabe que o lema “dividir para conquistar” não é mera retórica. Ao invés de 10 mil pessoas em uma manifestação, são 300 homens em um protesto de gays masculinos, são 400 na manifestação das lésbicas que gostam de MPB, são mais 350 em um protesto de estudantes universitários repetentes, etc, etc, etc. Não me surpreenderia se, no futuro, um grupo revisionista exigisse que ao lado de “Homem”, a declaração francesa do século XVIII também trouxesse inscrito “e Mulheres” ou “e Homem Homossexual” ou ainda “e Homem Homossexual Negro e Solitário”. A lista é interminável. Estou exagerando? Um pouco. Mas nem tanto. Pensar na pessoa hoje somente como um ser humano é algo démodé.
Escrito por Leo Gomez às 19h01
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