Ricardo Kotscho: o censor
Eu sou jornalista e sempre admirei o trabalho de um colega chamado Ricardo Kotscho. Para quem não o conhece, Kotscho é um dos mais importantes jornalistas brasileiros da atualidade e do passado recente. Não, não estou exagerando. O cara é bom mesmo. Durante o regime militar, ele coordenou uma série de reportagens, intituladas “Mordomias”, que tratavam dos gastos nababescos de políticos da época. Pressionado pela repercussão que o trabalho alcançou, o jornalista passou alguns anos fora do país esperando, digamos, a poeira baixar. Nos anos 80, Kotscho cobriu, pelo jornal Folha de S. Paulo, o movimento pelas Diretas-Já. O trabalho, como o anteriormente citado, também foi brilhante. Eu li, muito anos depois, parte desses textos. Me surpreende, portanto, que alguém com esse currículo censure ou, ao menos, mande censurar. Explico: em 31 de julho de 2009, o blog do jornalista publicou um texto intitulado “Dois anos de batalha para adotar duas filhas”. O texto trazia um relato das dificuldades enfrentadas por Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do Presidente Lula, para adotar duas crianças. O texto é comovente, como, aliás, vários dos comentários ressaltaram, mas o que realmente me chamou à atenção foi o trecho abaixo: Durante este processo [o processo de adoção], várias oportunidades se ofereceram para a gente [Gilberto Carvalho e sua esposa] “furar a fila”. Mas tínhamos compreensão de que não poderíamos ir por esse caminho. Nas poucas vezes que decidimos examinar estas possibilidades sempre vimos que era complicado e que o melhor era aguardar. Em função desse fragmento, apenas comentei o seguinte no blog do jornalista Ricardo Kotscho: escrevi que respeitava Gilberto Carvalho, sobre quem nunca houve qualquer acusação de sacanagem com o dinheiro público ou privado, mas que o mesmo precisava denunciar quais foram as “oportunidades” que ele teve para furar a fila da adoção. No texto, Carvalho ressalta que se recusou a trilhar um caminho ilegal, mas deixa explícito que foram oferecidas vantagens indevidas em um processo que deveria ser baseado na isonomia. Para minha surpresa, o comentário foi rapidamente apagado do endereço eletrônico. Reescrevi um texto com o mesmo teor e ele foi, novamente, retirado do ar pelo “moderador” da página. Não sei se o “moderador” é o próprio Kotscho ou algum contratado. Se eu tivesse ofendido Gilberto Carvalho ou usado termos chulos nos meus comentários, eu entenderia a censura. Contudo, fiz somente uma análise de como deveria se portar um homem probo, sobretudo uma figura tão importante do poder executivo federal. Entre 2003 e 2004, Ricardo Kotscho foi Secretário de Imprensa da Presidência da República. Ele tem uma relação muito próxima com Lula e Carvalho. Eu entendo que Kotscho tenha afeto pelos dois, mas ele deveria concentrar-se no trabalho de jornalista e não no de censor, ainda que este seja motivado pela amizade. Caso o texto desperte uma entre tantas perguntas, eu já me antecipo... Sim. Eu tenho como provar o que escrevi.
Escrito por Leo Gomez às 17h17
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