Carro: até quando é bom é ruim
O GPS, sistema de posicionamento global, é um item cada vez mais comum em táxis da capital paulista. O aparelho, que lembra uma pequena televisão, geralmente, fica ao lado do motorista. Sua função é orientá-lo sobre o caminho correto. Uma voz diz para onde a pessoa deve ir. Ou melhor: para onde o indivíduo deve levar o carro. Essa voz, curiosamente, é sempre feminina, ao menos nos carros nos quais tive a oportunidade de ouvir o aparelho em funcionamento. Por que utilizar uma voz feminina como guia? Pensei em algumas possibilidades. Primeira: acho que a voz feminina, ainda que com um sotaque eletrônico, tende a acalmar o motorista. Quando a fêmea não está irritada, o som emitido pela mesma é bem mais delicado do que o ruído emitido pelo macho. Há exceções, como é o caso de algumas cantoras da MPB, mas falo da maioria. Acalmar o motorista é importante, afinal, como bem adiantou Freud, dirigir é neurotizante. Segunda possibilidade: quando o assunto é caminho, mulheres são, inegavelmente, mais confiáveis. Homem que se preze jamais olha um mapa ou pede qualquer tipo de informação, mesmo que esteja tão perdido quanto o Brasil. Mulher é outra história. Elas costumam admitir que não sabem determinado caminho e que precisam de ajuda. E os homens sabem disso. Levando isso em conta, é natural que o motorista confie, instintivamente, mais na robô fêmea do no robô macho. Resumindo: colocar uma voz feminina no bendito GPS foi uma boa idéia. O que não é legal é o carro em si. Como São Paulo nos lembra diariamente, o automóvel é uma afronta ao trânsito e ao meio ambiente. Quando o assunto é carro, com exceção do GPS que é legal pra caralho, soy siempre contra!
Escrito por Leo Gomez às 12h45
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UM LIXÃO CHAMADO OSCAR FREIRE Eu moro perto de um lixão chamado Oscar Freire. De lá vem um cheiro fétido incessantemente. O ideal, para o bem da saúde pública, seria removê-lo dali, mas isso de pouco adiantaria. Afinal, logo o lixão seria instalado em outro lugar, comprometendo novamente a saúde do cidadão de bem. Para quem não vive em Sampa ou estava em Marte nos últimos anos, eu explico: não existe nenhum lixão com esse nome em São Paulo. Oscar Freire é uma rua da capital paulista que reúne lojas de grifes caríssimas. Pagar milhares de reais em uma peça de roupa é deveras escroto em qualquer lugar. Quando falamos do Brasil, isso se torna um escarro bem viscoso no meio da cara. Preciso lembrar que o nosso país é desigual pra caralho e tal? Ok. Vou adiante. Mas ao contrário do que ocorre nos shoppings, a Oscar Freire está sujeita a algumas intempéries: chuvas, poluição sonora, mendigos, etc. Com o intuito de controlar ao menos um desses fenômenos, os lojistas da rua criaram uma espécie de vale esmola (li essa definição em vários textos). No lugar de dinheiro, comida ou qualquer outra coisa, os frequentadores da rua em questão podem dar aos mendigos um cupom, chamado “vale valor”, entregue pelos lojistas. O “vale” é para ser usado em uma ONG que funciona no Brás, a cerca de 15 quilômetros da rua Oscar Freire. A idéia, não precisa ser nenhum gênio para perceber, é incentivar o êxodo da mendicância. Muito típico do nosso país: ao invés de resolver o problema, tenta-se sumir com ele. O telejornal SPTV, da TV Globo, fez uma matéria razoavelmente crítica sobre o assunto. Vejam bem: a Globo, que não está alinhada com nenhum desses radicais do PSTU ou do PCO, fez algumas ressalvas ao trabalho de assistência social desenvolvido pelos mascates dos Jardins. Estou sendo novamente irônico. Perceberam? Em entrevista ao telejornal, Rosângela Lyra, presidente da Associação de Lojistas da Oscar Freire, disse o seguinte: “Não que eles nos incomodem, mas o fato de existir uma situação dessas incomoda as pessoas, e dar esmola não resolve nenhuma situação.” Muita gente escrota vai gritar o seguinte: tá preocupado com os mendigos, então leva pra casa! Em primeiro lugar: moro com os meus pais. Portanto, teria de consultá-los primeiro. Segundo: ainda moro com meus pais porque ter uma casa em Sampa é muito caro. Pouca gente sabe, mas muitos moradores de rua exercem algum tipo de trabalho. Mas eles ganham tão mal que não têm condições de pagar aluguel, mesmo que seja o de um quartinho sujo em um cortiço imundo. Terceiro: não sou eu quem preciso repartir o pouco que tenho. Não se faz distribuição de renda dividindo a renda do pobre com o miserável. Também não se faz distribuição de renda dando esmola, como bem lembrou a socialite Rosângela Lyra. A Veja São Paulo, também conhecida como Vejinha, nome mais apropriado, aliás, publicou, em 2005, um perfil da socialite, que também é diretora-geral da grife francesa Dior no Brasil. “Tive uma criação de princesa”, contou a perfilada (para ler a "reportagem" na íntegra, acesse o link no final do texto). Segundo a nossa Constituição mais recente, “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Para quem ainda não leu recomendo, o texto da Constituição de 1988 é belíssimo: sobretudo os trechos que tratam dos “princípios fundamentais” e dos “direitos e garantias fundamentais”. Lá não há qualquer menção a títulos de nobreza, como príncipe ou princesa, mas é explícito um dos objetivos da carta: “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”. Mas a prática, como sabemos, é bem diferente da teoria. A Constituição é letra morta quando se trata de proteger os desvalidos. Quando a elite se sente ameaçada, a carta vira uma leoa. Não é que gente como Rosângela Lyra ou Luciano Huck me incomode, afinal, eu nem os conheço. Contudo, o fato de existir uma classe social tão privilegiada em um país tão fecalmente injusto, isso sim me incomoda. Escrever sobre isso não resolve nada, mas serve, ao menos, para eu demarcar um minúsculo território neste grande latifúndio. http://veja.abril.com.br/vejasp/021105/perfil.html
Escrito por Leo Gomez às 17h43
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