GOMORRA: UM PUTA LIVRO
Não é fácil achar um bom livrorreportagem. Em meus quase trinta anos de vida, li pouca coisa nessa área que realmente me tocou. “A Sangue Frio”, de Truman Capote, por exemplo, jamais saiu da minha memória, assim como “O Reino e o Poder”, de Gay Talese, e “Notícias da Um Sequestro”, de Gabriel García Márquez. Pra quem não sabe, antes de ser escritor, o colombiano foi jornalista e, de vez em quando, ainda exerce a profissão. Não sei se ele tem diploma. Na noite de ontem terminei de ler uma obra que já coloquei no meu panteão dos grandes livros investigativos. “Gomorra”, obra de estreia de Roberto Saviano, fala sobre os negócios (lícitos e ilícitos) da Camorra, que é hoje, provavelmente, o mais importante grupo mafioso italiano. Como na maioria das grandes empresas, o objetivo principal dos camorristas é o lucro. E rápido, bem rápido. O resto não tem importância. Por exemplo: a Camorra se especializou em desaparecer com o lixo produzido pela iniciativa privada e também pelo poder público. A máfia cobra um preço bem menor que outras empresas legalizadas cobrariam e faz um serviço, digamos, sujo. Os mafiosos depositam o lixo, muitas vezes altamente tóxico, em locais inadequados. Muitas das terras nas quais a Camorra atua, no sul da Itália, estão contaminadas. Nesses locais, tornou-se impossível a agricultura e a pecuária. E os casos de câncer na população são muito maiores do que em outras regiões do país. Como toda empresa que se preze, a Camorra procura diversificar os seus negócios. Além do lixo, o grupo, formado por vários clãs, atua em áreas como a construção civil, a indústria têxtil e o tráfico de drogas. Sacaram que apenas um desses setores pode ser considerado ilegal? Continuemos... Muitas grifes italianas compram roupas de fábricas controladas pela Camorra. Nem é preciso dizer que os funcionários dessas empresas não gozam de bons salários e também não possuem nenhum tipo de direito trabalhista. FHC quis acabar com a era Vargas. O processo teve início, mas não chegou ao fim almejado pelo ex-presidente. A Camorra conseguiu. E fez isso de maneira brutal. Roberto Saviano, que foi jurado de morte após a publicação do livro, mostrou também como funciona o tráfico de drogas sob comando da Camorra. Em um trecho do livro, o autor descreve um cena presenciada por ele em Miano, bairro pobre e violento de Nápoles. Saviano conta que a Camorra vai atrás de viciados e oferece drogas, como a cocaína, de graça. Não se trata de um trabalho beneficente ou qualquer coisa do tipo. A máfia precisa ver se a mistura está boa. Pra quem não sabe, é raríssimo encontrar cocaína totalmente pura. Para aumentar o lucro, os traficantes acrescentam outros produtos ao pó branco. Produtos como manitol, benzocaína, cafeína, lidocaína e anfetamina. Chegam a misturar até mesmo talco. Trinta quilos de pó, exemplifica Saviano, viram 150 quilos “depois da primeira mistura”. Mas se a mistura estiver malfeita, o cliente morre. E a Camorra não quer isso. Eles não querem perder os seus compradores mais fiéis. Por isso, os camorristas procuram dependentes químicos nos bairros pobres de Nápoles, como Miano, e oferecem o produto a preços irresistíveis ou até mesmo de graça. Roberto Saviano presenciou uma dessas promoções. Naquele dia, a maioria dos viciados recusou a cocaína do traficante, mas um casal, por fim, acabou aceitando. A namorada injetou a coca no parceiro. A reação foi imediata. Ele teve uma espécie de convulsão e, em segundos, parecia estar morto. O criminoso que ofereceu a droga checou o coração do rapaz e deu um telefonema avisando que a mistura não estava boa: “Morreu. Devemos misturar menos...” Após constatar a morte do viciado, o camorrista entrou em um carro e partiu. Esse é apenas o começo da história. O mais impressionante aconteceu depois que o criminoso foi embora. O autor de “Gomorra”, como já disse, presenciou tudo: “Não entendi o que aconteceu em seguida. A namorada abaixou a calça, acocorou-se na cara do rapaz e mijou em cima.” Ele continua: “Logo depois, o rapaz recobrou os sentidos. Passou a mão sobre a boca e o nariz, como quem tira água quando sai do mar. Este Lázaro de Miano, ressuscitado por quem sabe qual substância presente na urina, se levantou lentamente. Juro que, se não estivesse horrorizado com a situação, teria gritado que era um milagre.” Duas perguntas me acompanham desde então. Como diabos a namorada do loki sabia disso? E diante de uma overdose provocado por cocaína, será que isso funcionaria mesmo?
Escrito por Leo Gomez às 19h31
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