Eu tenho mais medo de processos judiciais do que dos mortos

Acima, o mausoléu da família Matarazzo, maior que qualquer casa popular já construída no Brasil
Aviso: as imagens que ilustram esse texto podem me custar um processo judicial. Como eu tenho muito medo, a exemplo de algumas atrizes globais, precisei refletir bastante antes de ir em frente na redação do texto que segue. Incentivado pelo álcool (que encoraja até o mais covarde dos homens), venci o terror que se apodera de mim e de alguns funcionários da TV Globo de quatro em quatro anos. No último sábado, 31 de Janeiro, eu e minha namorada visitamos o Cemitério da Consolação, local já famoso pelos seus belos e imponentes jazigos. Diante de túmulos tão formosos, decidi tirar algumas fotos. Quando captava um das 55 imagens que agora tenho arquivadas no meu computador, fui interpelado por um dos funcionários do lugar. Ele disse, com um pouco de agressividade, que era proibido tirar fotos dentro do cemitério e que se eu continuasse com aquilo ele teria de chamar os seguranças. Eu expliquei que não sabia que era proibido tirar fotos naquele recinto, o que é verdade. Quando ele partiu em sua jornada entre os mortos, voltei a tirar fotos. Não sei que crime posso ter cometido ao fotografar jazigos, mas me coloco à disposição das autoridades para receber a punição prevista por tal violação. Antes que seja preso, porém, vou relatar, digo, confessar cada um dos meus passos naquele dia de mórbida transgressão. Enquanto caminhava pelas alamedas arborizadas, no início do passeio, vi um grupo de crianças em volta de um túmulo. Ao lado delas, ajoelhados, estavam dois integrantes devidamente uniformizados dos Arautos do Evangelho, uma organização dissidente e ainda mais radical que a já conservadoríssima TFP (Tradição, Família e Propriedade). O túmulo venerado era de Plinio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP morto em 1995. Embora sejam dissidentes, os Arautos continuam prestando homenagens ao idealizador do movimento que eles dividiram. Após isso, eu e minha namorada continuamos a nossa peregrinação pelo lugar. Perto do fim da caminhada, debaixo de muito sol, encontramos o jazigo do ex-presidente Campos Sales, advogado que comandou o país entre 1898 e 1902. Um belo túmulo, mas pequeno diante do imponente e megalomaníaco mausoléu da família Matarazzo. O jazigo é impressionante. Com cerca de 20 metros de altura, o local poderia abrigar uma caralhada de sem-teto e, talvez, a família do funcionário diletante que nos ameaçou naquele dia. Aposto que o falecido Conde Matarazzo, morto, mora melhor que o funcionário já citado, funcionário tão ciente das suas obrigações. Os ricos podem dormir ou morrer tranquilos, sempre haverá um bando de pobres que se sacrificará para proteger a tradição e fortuna alheias. O miserável em questão, de uniforme puído, é mais realista que o Rei. Ou melhor, neste caso, mais realista que o Conde. 
O túmulo do ex-presidente Campos Sales

Um dos calados moradores do Cemitério da Consolação

Jazigo com uma leve influência… Egípcia?
Escrito por Leo Gomez às 20h16
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